Maternidade: entre a idealização e a realidade
- Evelyn de Paula Pereira
- 11 de mar.
- 4 min de leitura

Quando uma mulher descobre que está grávida, é natural idealizar a maternidade com romantismo, associando-a a amor, carinho e conexão. No entanto, à medida que as mudanças hormonais, físicas e emocionais se intensificam, essa visão começa a se transformar. A realidade da gestação pode trazer desconfortos físicos, fadiga e oscilações emocionais, levando algumas mulheres a se sentirem solitárias e incompreendidas. Esse turbilhão emocional tem base biológica, já que as flutuações hormonais, especialmente nos níveis de estrogênio e progesterona, influenciam diretamente o humor e a sensibilidade emocional da gestante, podendo causar desde variações de humor até quadros de ansiedade e depressão (Molina, Almeida & Viana, 2020).
Essa mudança na percepção da maternidade não ocorre isoladamente. A sociedade moderna impõe novas exigências às mulheres, que, ao conquistarem independência e espaço no mercado de trabalho, passaram a acumular mais responsabilidades. O tempo dedicado à casa e à família se reduziu, mas a carga mental e emocional não diminuiu na mesma proporção. Estudos mostram que, mesmo em casais que compartilham as responsabilidades, as mulheres ainda assumem a maior parte do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos, o que pode aumentar os níveis de estresse e exaustão (Nomaguchi & Milkie, 2020). Esse cenário agrava ainda mais o impacto emocional da gravidez, que já é um período naturalmente desafiador.
Conforme a gestação avança, novas preocupações surgem. Nos meses finais, a ansiedade costuma se intensificar, fazendo com que muitas mulheres deixem de apreciar a experiência da gravidez e passem a contar os dias para o nascimento do bebê. Esse estado de estresse pode impactar o parto, pois a liberação excessiva de hormônios como o cortisol pode dificultar o trabalho de parto espontâneo e aumentar a probabilidade de complicações (Dunkel Schetter & Tanner, 2012). Por isso, a conexão com o próprio corpo e o controle emocional são fundamentais para um parto mais tranquilo, favorecendo um processo natural e menos traumático para mãe e bebê.
Após o nascimento, a mãe vivencia um período de intensas transformações. Os primeiros seis meses são marcados por privação de sono, adaptações à nova rotina e recuperação física, o que pode gerar esgotamento extremo. A ausência de uma rede de apoio nesse período aumenta o risco de exaustão e depressão pós-parto.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 20% das mães apresentam sintomas depressivos nesse período, o que pode impactar tanto sua saúde mental quanto o vínculo com o bebê (WHO, 2021).
Paralelamente, o bebê também enfrenta uma grande adaptação ao sair do ambiente intrauterino e lidar com estímulos externos. O choro é sua principal forma de comunicação e, nesse momento, cabe à mãe – ou aos cuidadores – interpretar suas necessidades e oferecer conforto, fortalecendo um vínculo seguro e essencial para o desenvolvimento da criança (Ainsworth, 1979).

No entanto, esse processo de construção do vínculo materno muitas vezes é interrompido precocemente pelo retorno ao trabalho. Após o período da licença-maternidade, muitas mães se veem diante de um dilema: como conciliar a carreira com a maternidade? A incerteza sobre a volta ao mercado de trabalho, o medo de não conseguir dar conta de todas as funções e a pressão social geram angústia. O peso dessa cobrança se torna ainda maior em uma sociedade que ainda carrega resquícios de machismo, onde muitas mulheres sentem que precisam provar sua competência profissional enquanto lidam com a autocobrança de serem "boas mães" (Hochschild & Machung, 2012).
Sem uma rede de apoio eficiente, essa sobrecarga pode levar à exaustão extrema e, em alguns casos, ao burnout materno, uma síndrome caracterizada por exaustão física e emocional devido à pressão constante para atender às expectativas maternas e profissionais. Pesquisas apontam que mães que acumulam múltiplas funções sem suporte adequado apresentam maior risco de ansiedade, depressão e esgotamento mental, afetando diretamente sua qualidade de vida e sua relação com os filhos (Sliwerski et al., 2020).
Diante desse cenário, encontrar equilíbrio entre a razão e a emoção torna-se essencial para uma maternidade mais leve e saudável. Para as mães que trabalham fora, a qualidade do tempo com os filhos é mais importante do que a quantidade. Pequenos rituais diários – como um banho relaxante, uma história antes de dormir ou um abraço acolhedor – são mais significativos para a criança do que a simples presença física sem conexão real. Estudos indicam que crianças que recebem atenção de qualidade de seus cuidadores desenvolvem maior segurança emocional e habilidades sociais mais fortalecidas (Ainsworth, 1979).
No final das contas, o que realmente importa para uma criança não é uma mãe perfeita, mas uma mãe presente, consciente e amorosa.
Assista o vídeo abaixo que fala sobre vínculo e desenvolvimento do bebê.
Referências
Ainsworth, M. D. S. (1979). Infant–mother attachment. American Psychologist, 34(10), 932.
Dunkel Schetter, C., & Tanner, L. (2012). Anxiety, depression and stress in pregnancy: implications for mothers, children, research, and practice. Current Opinion in Psychiatry, 25(2), 141-148.
Hochschild, A. R., & Machung, A. (2012). The Second Shift: Working Families and the Revolution at Home. Penguin Books.
Molina, R., Almeida, R., & Viana, J. (2020). Hormonal changes and emotional regulation in pregnancy. Journal of Women's Health, 29(4), 512-520.
Nomaguchi, K., & Milkie, M. A. (2020). Parenthood and well-being: A decade in review. Journal of Marriage and Family, 82(1), 198-223.
Sliwerski, A., Kossakowska, K., Jarecka, K., et al. (2020). Maternal burnout in the context of intensive parenting: Links with anxiety and depression symptoms. PLoS ONE, 15(12), e0243770.
WHO (2021). Maternal mental health and child health and development in low and middle-income countries. World Health Organization
Comments